Eu não ligo
nenhum para o Dia da Criança. Não embandeiro em arco nem desato a comprar
prendas para a minha filha. No limite, tento sair mais cedo (verei se consigo)
para ir passear com ela até ao parque, de resto é um dia como outro qualquer.
Se calhar porque ela tem tudo. Porque tem quem a ame. Quem a vista. Quem a
alimente. Quem a mime. Quem a eduque. Quem lhe dê cultura e conhecimento. Quem
a ponha a ouvir as Marias, as Xanas Toc Toc e os Pandas todos e mais alguns. E
como tal, creio que para a nossa vivência, e ainda bem, este dia não faz
sentido.
Leio que a
fome no mundo mata a cada 5 segundos uma criança. Isso sim, é dramático. E o
que fazemos neste dia? Colocamos fotografias dos nossos bem alimentados e
rechonchudos filhos no facebook, os amigos comentam como ‘linda’, ‘maravilhosa’
e coisa e tal e saímos mais cedo para comprarmos uma prenda que se irá juntar à
tonelada recebida no último natal. E amanhã esqueceu-se o dia. Passamos à
frente. Depois vejo pelo noticiário que elas, atrizes e empresários deste
mundo, recheadas de creme lá mer nas fuças, malas Chanel, roupas da última griffe
dizem, perante uma amálgama de jornalistas, que pensam e que ajudam as crianças
que tiveram o azar de nascerem nos países em vias de desenvolvimento. Que seu
coração sofre por elas. Que. Que. Que. E acabam o espetáculo e ligam ao seu
contabilista para saber se podem colocar mais uma tranche algures livre de
impostos e vão comer alface ao restaurante mais caro do universo. Descansados e
com a mente em paz. Que bom, porque precisamos de paz.
E vivemos
todos assim, uns mais e outros menos, mas contentes por não vivermos na
Nigéria, no Gana ou num outro país que só existe, como país, no mapa. Por cá
temos a nossa dose. Temos os meninos da casa pia que estando à tutela do Estado,
mais valia não estarem porque este Estado não foi um pai amoroso, cuidadosos,
terno e atento. Não foi. Para já sabemos que permitiu que uns fossem violados,
brutalizados e que outros levassem com chumbo nos dentes como se não houvesse
amanhã. Se calhar até aconteceu a alguns ambas as coisas. E saber se chegaram à
idade adulta sem problemas neurológicos é o próximo passo. E se não chegaram?
Como se volta atrás? Não permitimos que façam experiencias com os nossos
filhos, jamais deveríamos permitir que fizessem com aqueles de quem temos a
tutela. Mas tudo bem… são meninos que devem estar contentes porque têm os
dentes chumbados. E que eu saiba dentes chumbados não dão dores. E dores de
dentes é tramado. Mas eu continuo a ir para casa, com a minha filha, feliz e
contente. E isto é só um desabafo contra tudo e todos e um pouco contra mim. Aquilo
que vou fazendo é pouco. Dou o que a minha filha já não precisa a crianças que
nada têm e precisam. Não dou o que está velho e já não presta. Dou o que está
bom. Mobília e roupa. E mais umas coisinhas. Recuso-me a colocar nos sites de
venda de objetos em segunda mão, porque a quem dou nem a esses consegue chegar.
Mas sei que é pouco. Muito pouco. E que este dia me sirva para dar um pouco
mais.
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