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sexta-feira, 1 de junho de 2012

Dia da Criança


Eu não ligo nenhum para o Dia da Criança. Não embandeiro em arco nem desato a comprar prendas para a minha filha. No limite, tento sair mais cedo (verei se consigo) para ir passear com ela até ao parque, de resto é um dia como outro qualquer. Se calhar porque ela tem tudo. Porque tem quem a ame. Quem a vista. Quem a alimente. Quem a mime. Quem a eduque. Quem lhe dê cultura e conhecimento. Quem a ponha a ouvir as Marias, as Xanas Toc Toc e os Pandas todos e mais alguns. E como tal, creio que para a nossa vivência, e ainda bem, este dia não faz sentido.

Leio que a fome no mundo mata a cada 5 segundos uma criança. Isso sim, é dramático. E o que fazemos neste dia? Colocamos fotografias dos nossos bem alimentados e rechonchudos filhos no facebook, os amigos comentam como ‘linda’, ‘maravilhosa’ e coisa e tal e saímos mais cedo para comprarmos uma prenda que se irá juntar à tonelada recebida no último natal. E amanhã esqueceu-se o dia. Passamos à frente. Depois vejo pelo noticiário que elas, atrizes e empresários deste mundo, recheadas de creme lá mer nas fuças, malas Chanel, roupas da última griffe dizem, perante uma amálgama de jornalistas, que pensam e que ajudam as crianças que tiveram o azar de nascerem nos países em vias de desenvolvimento. Que seu coração sofre por elas. Que. Que. Que. E acabam o espetáculo e ligam ao seu contabilista para saber se podem colocar mais uma tranche algures livre de impostos e vão comer alface ao restaurante mais caro do universo. Descansados e com a mente em paz. Que bom, porque precisamos de paz.

E vivemos todos assim, uns mais e outros menos, mas contentes por não vivermos na Nigéria, no Gana ou num outro país que só existe, como país, no mapa. Por cá temos a nossa dose. Temos os meninos da casa pia que estando à tutela do Estado, mais valia não estarem porque este Estado não foi um pai amoroso, cuidadosos, terno e atento. Não foi. Para já sabemos que permitiu que uns fossem violados, brutalizados e que outros levassem com chumbo nos dentes como se não houvesse amanhã. Se calhar até aconteceu a alguns ambas as coisas. E saber se chegaram à idade adulta sem problemas neurológicos é o próximo passo. E se não chegaram? Como se volta atrás? Não permitimos que façam experiencias com os nossos filhos, jamais deveríamos permitir que fizessem com aqueles de quem temos a tutela. Mas tudo bem… são meninos que devem estar contentes porque têm os dentes chumbados. E que eu saiba dentes chumbados não dão dores. E dores de dentes é tramado. Mas eu continuo a ir para casa, com a minha filha, feliz e contente. E isto é só um desabafo contra tudo e todos e um pouco contra mim. Aquilo que vou fazendo é pouco. Dou o que a minha filha já não precisa a crianças que nada têm e precisam. Não dou o que está velho e já não presta. Dou o que está bom. Mobília e roupa. E mais umas coisinhas. Recuso-me a colocar nos sites de venda de objetos em segunda mão, porque a quem dou nem a esses consegue chegar. Mas sei que é pouco. Muito pouco. E que este dia me sirva para dar um pouco mais.

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