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quinta-feira, 5 de abril de 2012

a Páscoa na minha aldeia

Acho que nunca passei a Páscoa fora da minha aldeia.
O ritual que por lá ainda se pratica, faz-se sentir que o domingo de Páscoa não rivaliza mas é mano do Natal. As familias juntam-se. Estreiam-se roupas. Come-se cabrito assado no forno de lenha, e o Menino Jesus vai a todas as casas para que o beijemos. É assim uma festa toda pomposa onde, imaginem e pasmem-se muito, o meu pai e outros como ele, compram foguetes para que explodam no preciso momento em que o Menino Jesus entra em nossa casa. É assim uma preciosidade. E embora eu e o meu irmão gozemos com o assunto, a verdade é que cedo lá estamos, banho tomado e bem vestidos a receber o Senhor em plena sala de estar dos meus pais. A mãe obriga-me e colocar a melhor toalha de mesa para, sobre ela, repousarem os queijos, os presuntos, os doces e o inevitável vinho do porto velhissimo para que, ora vejam bem, os senhores que carregam o Menino Jesus possam alimentar a alma. É uma doçura de domingo. E eu gosto muito. E começei a gostar mais quando, por falta de padres passou a ser uma freira a andar com o Compasso (com o Menino). Ela é um género de super mulher mas sem o top azul e as cuecas azuis e vermelhas (acho eu). Corre, salta, canta, ri, pega no Menino com genica, beija todo o mundo, fala de tudo, mete-se com as criançinhas e bebe o vinhinho do porto deitando um 'ah' de satisfação no fim. Quando entra em nossa casa, e fará  mesmo em todas as outras casas, depois de dizer 'Aleluia, aleluia o Senhor Ressuscitou' desata a cantar, numa voz esganiçada e fina, como se estivesse sozinha no mundo. Fecha os olhos e abre as goelas e aquilo é qualquer coisa digna de uma filme de Kusturica. O Menino que nos é dado a beijar mete-me assim um pouco de rejeição porque quando Ele chega a minha casa já metade da aldeia o beijou. E a mim não me apetece beijar no mesmo sítio que a Aurora louca beijou, ou o Zé Pitadas, ou o Manelzinho do apaga-a-vela, ou mesmo a Luisa macho. Simplesmente não me apetece e assim dou um beijo do alto que funcionou até a freira-super-mulher aparecer. Com ela não tenho hipoteses. Ela remete o Menino em direção às minhas beiças e não tenho como escapar. Beijo metade da aldeia, portanto, nos domingos de Páscoa. Por tudo isto e mais uns pormenores que agora não interessam, este ano estou um pouco triste porque não vou passar a Páscoa à minha aldeia. Vai ser um domingo normal. Com o mano. Mas sem os foguetes, a freira super-mulher,  a aldeia em alvoroço, a roupa nova, o tentar fugir do Menino todo beijado e não conseguir fugir.
Pode ser que para o ano que vem consiga não escapar. Que bom que era!

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