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segunda-feira, 9 de abril de 2012

Praga


Praga está cheia de campanários. Por isso, ela é encantadora vista de cima, da mesma forma que é encantadora vista da terra. Há qualquer coisa de conto de fadas e será este um dos motivos de ser intitulada de Terra de Príncipes e Princesas.

Pisamos a Cidade Velha e entramos, automaticamente, num filme antigo. Se fecharmos os olhos até juramos ouvir os cascos dos cavalos sobre as estradas em pedra. É realmente o passado a falar. A modernidade não é para aqui chamada e não faz falta. Digo eu que fui turista. Em conversa com uma lojista, para quem vive lá a conversa é outra. Mas como não vivo nem faço intenção de viver, confesso que adorei.

Como somos umas meninas orientadas, definimos tão bem a nossa viagem que vimos tudo e ainda tivemos tempo para repetir o que gostamos mais bem como para, no último dia irmos a Terezin ver o campo de concentração.

Praga fica ali, no virar do sonho e é terra para nunca mais se esquecer, nem que levemos com quinhentas anestesias no cérebro (como bem me pode acontecer). E do que repetimos temos coisas tão simples como o muro de Homenagem ao John Lennon. Sei lá, repete-se aquilo que a dada momento, e dentro de nós, nos tocou mais, nem que seja algo pouco relevante para a história em geral e para os pragenses em particular. O Muro do John Lennon tinha lá frases, umas curtas e outras compridas, outras apenas uma palavra que fazia sentido a cada uma de nós. Ficamos ali, de máquina em punho, a ler ao pormenor e a fotografarmos para que o revejamos sempre que nos apetecer. Happiness, I love you, I feel love around me, I’m sad in love… quem pode esquecer? Não são estas frases universais? E foi assim, de forma simples, que consegui aprender a dizer Amo-te em Checo: Milu Ju. Não esquecerei. E aviso que não vem assinalado no guia da American Express.






Temos a catedral de S. Vito, imponente e bela dentro do castelo. Ela manda naquilo tudo. Impõem-se em pleno, e se fossemos dignas daquela visita, devíamos logo, assim que entramos, colocarmo-nos de joelhos perante tamanha obra. Esmaga embora eu, a dada altura, me tenha distraído com um casamento que estava a ter lugar cá fora. Deixei para depois a Catedral e comecei a fotografar o casal. Nunca resisto ao amor, mesmo que seja um amor japonês em solo Checo. Parei quendo a noiva me deitou um olhar de odio. Parei.




Gostei da casa de Kafka. Pequenina, muito pequenina e com uma janela muito simples que dava para um pequeno vale. Ah se ele tivesse uma vista como eu tenho quando vou ao meu douro, que diferença teria feito nas suas obras!

A ponte, as casas cheias de arte nova, o cemitério judeu (meu Deus!), os pormenores das varandas, o relógio da cidade velha, o monumento às vítimas do comunismo, a mini-mini torre Eiffel and so one tornaram os nossos dias em dias de grande contemplação.




Mas o ultimo sitio, o campo de concentração de terezin, mudou-nos por dentro. Sabemos o que se passou na 2ª Guerra Mundial, lemos nos livros sobre o holocausto, vemos filmes, angustiamo-nos um pouco com a coisa, mas estar num sítio onde as vozes dos torturados judeus parecem ainda ouvir-se, onde fotografias de crianças judias que morreram por lá são mostradas, onde o cheiro do crematório parece vir agarrado às narinas, é outra história. Não se percebe como pode ter acontecido. Não sabemos como mesmo que saibamos. E cresce uma revolta que nos emudece.





De resto, vale a pena ir e é bom voltar porque é sempre bom voltar quando o cheiro que levávamos dos nossos filhos parecia estar a acabar e temíamos morrer de saudades e deixarmos pedaços de nós mesmas, enquanto mães, no solo de Praga.


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